MAR - sei o tamanho da eternidade

1

Uma gota

acabou de cair do centro do título,

e aqui a encontras, agora que abriste o livro.

Lentamente vão caindo a partir de agora.

Escutaste a segunda que caiu?

É tua. Toquei-te …

A água que aqui encontras é agora nossa.

Assim será o nosso toque,

a tua é a minha água, a minha água é a tua -

esta é a nossa única verdade.

Nada que eu diga é espelho,

quebramos o contrato da nossa separação:

lembras-te? “Toquei-te...”

Agora, que conheces o meu toque,

porque me reconheces,

já te posso dizer:

eu amo-te.

Amo-te não porque me pertences,

não porque te conheço,

não porque estás comigo,

não me pertences,

não te conheço,

não estás comigo.

Amo-te porque unimos aqui

os mais simples fragmentos de vida,

porque anulamos a nossa maior medida,

porque devolvemos a nossa Forma real à Criação.

Vem, acabamos de desaguar no mar.

2

Sente o movimento

destas três palavras,

três palavras

que são

uma:

quemsoueu?

É este o movimento que enlaça qualquer livro.

É este o movimento que me ajoelha agora a teus pés.

É intensa a melodia e é nossa,

um círculo de ponto e linha curva

que me subirá vagarosamente até ti:

quemsoueu?

Se vens comigo,

eis-nos pois,

respiraremos

profundamente

acima de qualquer degrau

e nenhuma palavra será daqui.

Se não, eis-me pois na eternidade,

nada mais certo que o nosso reencontro.

3

Sinto as tuas mãos estendidas,

sinto-as,

é como se fossem asas brancas.

As tuas mãos trazem linhas que não são daqui.

Essas linhas, repara,

são como um mapa,

é o trajecto da minha resposta.

Segue com o teu dedo indicador a linha da vida,

essa que parte do polegar e acaba no pulso.

Sentes o vento?

Toca outra vez,

suavemente,

como quem se ama,

desliza pela linha da tua vida ...

Sentiste?

O dedo que aponta e toca suave

é o que desperta.

Toca uma e outra vez

até que seja fundo o sabor!

É aí que vibra um leão de fogo.

Sente sente sente.

  O vento sopra-te nas mãos,

sinto-o já,

larga a vela!

O fogo consumirá toda a água impura

na rota da mais simples linha.

Segue.

És tu quem me guia.

4

Vou contar-te um segredo.

estou sozinha,

profunda e magicamente sozinha

como está o mar.

Estou quieta num ponto da existência,

um ponto ensimesmado

onde os olhos se abrem

como tremendos muros de água.

Toda a idade ressoa nestes gigantes.

Todos os quartos rasgados em sulcos,

todos os quartos em flor,

todos os quartos negros de medo,

todos os quartos raiados de sol,

a primeira e a última explosão estelar,

os gritos do primeiro e do último recém-nascido!

Estou sozinha,

profunda e magicamente sozinha como está o mar.

Escuta bem enquanto lês estas palavras,

elas formam uma concha de onde nascerá a pérola

que me entregarás quando tudo acabar.

Escuta uma e outra vez o rumor:

estou sozinha,

profunda e magicamente sozinha como está o mar. 

Sente,

neste instante,

ganhou forma um barco à deriva,

quebrou-se a vela,

perdeste as sílabas e as ondas caem já longe,

nenhuma palavra tem traço neste lugar,

só o oco te mantém à tona,

só a leveza do vazio

te mantém firme sobre as ondas.

5

Confias em mim?

Mergulha,

vem-me buscar.

6

Fecho os olhos.

Fechas os olhos.

Sinto-te aqui no fundo das águas.

Aqui e agora

que estás comigo,

já reparaste como somos iguais?

Somos aqui a soma final deste mundo, caímos no fundo

e calamos toda a Terra,

somos já o pássaro

que abre as asas em Sirius,

somos o rio que desagua nas Plêiades.

Vou contar-te um último segredo agora:

aí, onde não te moves,

encontro a minha própria divindade.

Como não te amar?

7

Estamos no mar,

o mar dentro de nós,

nós o mar,

o mar em nós.

O mar que nos une,

o mar que nos move

- o mar em nós.

Não somos daqui,

isso sempre soube o mar.

8

Não é estranho que

numa só

Terra

te sintas de outro lugar?

9

Não há norte aqui,

podes largar a bússola já,

podes largar tudo …

Abre as mãos,

não tenhas medo.

Se as fechas

calas o eco branco deste lugar,

seca-se a fonte,

cai a última gota.

Abre as tuas mãos,

não tenhas medo.

Vê como me seguras.

Esta é a tua única certeza agora

- estou nas tuas mãos.

10

Agora que me viste no fundo,

sobe,

assume o teu lugar.

Diz-me, como é ver o mar iluminado,

como é sentir a luz a namorar-te o corpo?

Como é ser água com a água feminina,

ventre de todos os homens,

Mãe Yemanjá?

O vácuo da madeira embala-te

e despe-te de toda a terra,

vê como o sal te brilha nos braços,

sal rubro em osmose com um leão de fogo.

Só a água te empresta a vista,

só a água justifica quem és.

Não há rochas de tempo algum

que te guardem as lágrimas,

nada fica preso em lugar sem pedras.

Nenhum pássaro cantará a flor dos rios que visitaste

e nenhum sopro se deitará contigo em verde mimoso, toda a melodia aqui é estranha.

Uma só margem te define

e imagem alguma te descerrerá num prado dual,

nada há entre ti e o teu corpo.

Vê, sobre a linha do horizonte

um círculo levanta-se em fogo,

enlaça-me nos teus braços agora que o vês,

corpo consagrado ao meu espírito,

diz-me, que tanto te amo,

quem sou eu!

11

No alto

o meu espírito

fundiu-se com o teu,

mil cores evaporaram a água

e deslizam agora

suavemente

pelo nosso corpo

intensamente unido.

Toda a cor murmura entre si que

o amor desceu

e fez-se matéria

de luz em nós.

Somos tão leves, tão puros!

Despoletou o oiro nos meus lábios

que tocaram os teus

e juntos resplandecem até àquela estrela

nascida só para cumprir este instante,

este instante de amor

que ilumina toda a Terra.

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