AMAR - sei o tamanho da eternidade
1
Foi quando deu os últimos passos
que reparou na algibeira vazia,
tacteou o fundo escuro
com os dedos trementes
e do fundo tirou apenas uma pérola.
Naufragado,
tinha percorrido pelo todo
a sede densa de 11 dias,
11 dias à procura de uma história.
Restavam-lhe agora apenas
algumas folhas
que trazia no bolso, um lápis e
uma estranha pérola.
O viandante pousou o cajado,
fechou os olhos
e 7 dias chorou
sem saber porquê.
2
O viandante está de olhos fechados.
Tenta lembrar-se de um destino
que desapareceu com tudo o que trazia consigo.
Está suspenso no centro de um lago,
numa árvore onde fez casa.
Tem uma pérola na mão fechada,
cerrada em punho, no que parece ser um coração.
Há um silêncio estranho pousado na árvore,
um silêncio de um tempo de um outro tempo qualquer.
Os ramos estendidos sobre a água formam uma aberta de luz,
a única luz que lhe levanta os olhos sempre que os abre.
É então que os pousa longamente
em folhas translúcidas
e nos seus recortes
intensamente luminosos.
Quando abrem,
os seus olhos parecem ganhar
o movimento subtil da seiva,
e é lá, no âmago da árvore,
que se reconhece por instantes,
completo e indecifrável.
O seu leito está assim,
pendente pelo que parece ser
um milagre
- não se lembra de nada.
Um pequeno pássaro
entra-lhe pela janela
trazendo no bico
o primeiro
ramo de um ninho.
O viandante sorri,
pousa os olhos na água
e começa a escrever este livro.
3
O livro
do viandante
fala de um amor
que viveu numa outra vida.
Uma mulher de cabelos ruivos
com uma cruz tatuada no pulso.
Pela manhã vestiam-se de branco
para entrar com a neblina no rio,
pairavam serenos com ela
e desenhavam uma linha de
rosas brancas
que os fechava num circuito sem tempo.
Respiravam lenta e profundamente
até fundir o corpo com a água
e quanto mais água eram
mais a corrente se abria e afundava.
Era então que o círculo se transfigurava
abrindo passagem para uma terra vermelha,
onde viam um leão e um negro
ao pé de uma árvore sem folhas.
O negro desenhava símbolos com os dedos finos e velhos,
linhas serpenteadas, estrelas, círculos, triângulos e traços.
Suspensos sobre a água, guardavam tudo nos olhos e,
à noite, contavam um ao outro tudo o que tinham aprendido.
Num dos Invernos a cruz esbranquiçou,
e na noite mais fria do ano,
um anjo sussurrou ao ouvido da mulher
que era já tempo de subir.
Nessa noite, o viandante sonhou com duas serpentes
que lhe enrolavam os pulsos,
estava aninhado e os seus olhos malogravam sem tempo.
Todos os dias, desde então, ele sobe ao rio
e fixa o olhar na terra vermelha,
cor que lhe corre no corpo como corria nos cabelos dela.
4
Ao cair da noite,
ela costumava apontar
a estrela mais brilhante do céu,
e a brincar dizia,
foi dali que caí, sabias?
Aquela estrela abre-se em flor aqui, entre nós!
É dela que nasce o significado profundo de cada coisa,
ouves o que ela diz?
Ele nada ouvia, mas nos olhos dela tudo era claro.
Adormeciam depois, suavemente,
na superfície recôndita daquela flor.
Enquanto adormecia ela cantava quatro versos
para nunca mais os acabar:
Meu Pai Oxalá é o Rei, venha-me valer,
E o velho Omulu, atôtô, Obaluaê.
Atôtô Obaluaê, atôtô Bábá,
Atôtô Obaluaê, atôtô é o Orixá!
5
O viandante está de olhos fixos no livro,
sobre o branco procura estender outra brancura.
Quando o cansaço lhe fecha os olhos,
faz uma última oração
que de leve vai caindo sobre as folhas,
chama-lhe, a oração branca:
O mar está branco,
Branco do Sol, branco da Lua,
Nada se sabe, nada se quer
E palavra alguma se escuta.
Repouso os olhos nas asas que sobem
E confio ao voo a canção pura da minha fé,
Suave brancura que nasce e renasce
Como o desenho lento de uma pérola.
Meu Pai, minha Mãe,
Caem pétalas intactas e brancas.
Porque nada sei,
nada quero e nada julgo,
Tudo é luz no meu caminho.
Branco do Sol, branco da Lua,
Branco da Vossa Luz infinita.
Suspenso no meio dum lago,
o viandante escreve um livro,
um livro que ali ficará
por 300 anos.
6
300 anos passaram e o livro está quase branco.
O viandante mora no fundo do lago,
onde mora a velha mais velha do mundo
que repete:
tenho o corpo feito de terra e de água,
sobre os meus ombros cai o nevoeiro.
Não sou do bem,
não sou do mal,
nem tão pouco são minhas as palavras.
No meu pântano está o começo,
trespassada de Luz,
minha, é a porta da gravidez.
Se chorais, estais mais perto,
chorai, chorai,
até que límpidos
sejam os vossos olhos.
Ela canta todas as manhãs
para chamar as aves
que lhe trazem todos os restos do mundo,
tudo recebe e trabalha com as mãos,
erguendo em barro o que jazia no lodo.
O viandante ouve a canção sem saber porque a ouve,
e 300 anos ali espera,
com pés de lama e braços cobertos de algas.
7
Quando
abriu
os olhos
era manhã
e no centro da árvore estava
um livro em branco.
No lugar do ninho
estava uma cobra enrolada
e pela janela entrava o arco-íris,
seguiu com os olhos o arco até à água
onde pairava uma mulher de vento.
Vem, viandante,
acabou a caminhada,
há uma flor no alto
à tua espera desde sempre.
8
Lá no alto,
entrou num jardim imenso
onde só uma flor estava aberta.
Era uma flor como nunca tinha visto,
movia-se com uma brisa que não havia
e o seu brilho tinha todos os tons de azul.
O viandante ajoelhou-se e
com espanto
disse-lhe:
Esperei todo este tempo
para conhecer a tua água,
de outro modo
não poderia escutar-te.
Só porque tudo chorei
é que sei hoje que
sempre estiveste
comigo.
O viandante
sentiu o aroma da flor
e nesse momento
ouviu o seu nome.
Fechou os olhos
e viu-a mulher,
de mãos delicadas
e sorriso terno
a plantar uma árvore
no centro do seu peito,
a árvore do lago.
- Vai buscá-la,
ouviu dentro de si,
a mulher dos cabelos ruivos
tem agora olhos negros
e canta canções para Oxalá.
Saberás quem ela é.
9
- Já reparaste
que todas as flores
têm um nome próprio?
- Quem te disse isso?
- Ninguém, eu sempre o soube.
Quando me inclino sobre elas
para sentir-lhes o aroma,
elas dizem-me.
É muito bonito, sabias?
Se calhar também
consegues ouvir! Como te chamas?
- Então, não escutas o meu nome?
- Mas tu não és uma flor.
- Pois não, tens razão.
Mas eu sei o teu.
- Sabes?
Sim.
- Como é que sabes?
- Não sei, sempre soube.
- E que mais sabes sobre mim?
- Sei que caminhas de pés descalços
para sentir a cor da terra vermelha.
- Isso eu não sabia de mim,
mas sinto que faz sentido sim.
Tens uma voz muito bonita,
até parece de outro lugar.
- Se calhar sou!
- Sim, se calhar és!
- Mas, diz-me, como te chamas?
- Mar.

