A Inteligência no cristal

Aqui, puro na pedra e vibrante nas mãos, o cristal e o corpo afundam na realidade primeira a percepção - aquela onde mora um outro tipo de inteligência, da qual nos esquecemos para dar resposta às mil tarefas dos dias, do tempo que foi e que virá.

Efervescente nas sensações, a percepção do nosso Corpo que sustém a forma da vida, torna-se Presente e audível ali, na simplicidade do som do cristal.

Para escutar esta inteligência há que fechar os olhos, desenhar o caminho até à célula, sentindo a sensação e largar ... sossegar a percepção analítica que só quer entender a música com a razão ou o outro e as coisas com o sentido da visão ... o som do cristal tem em si a coerência manifesta de uma raiz ou de uma folha, por isso, na sua escuta não há linha de pensamento em conflito, há apenas o fluir - palavras de água. Nada se busca porque tudo está presente. É quando a visão se torna tão sensível, tão lúcida, que entende a linguagem das formas. Ter olhos para ver não é meramente ver ... é ter sensibilidade desperta - essa que mora na inteligência do corpo.

Para ir ao encontro deste corpo com o som, é preciso um tipo de silêncio muito subtil, a que eu chamo devocional. Esta não é uma devoção pensada, não nasce de nenhum pensamento ou ideia, nasce do corpo - do que só existe para sentir, de si para consigo - sem necessidade de tradução. Não se justifica porque só existe no dentro, a sua natureza é vívida e pura, sente-se no arrepio, na leveza e no prazer, no prazer do toque da brisa e do calor do sol sobre a pele, prazer sem poder ou ideia manifesta - puro e natural.

E daí o cristal ser tão precioso nesse encontro com o que só pode ser sincero, dando enfim origem aos poemas infindáveis do Belo.

Estes instrumentos não são musicais, são portais para a Inteligência ou As Inteligências da Vida.

Encontram-se as verdades, caem as máscaras ... terminam as guerras.

Próximo
Próximo

PAX ET BONUM